Acho que todos já testemunhamos a cena de pais desnorteados, envergonhados, sentindo-se julgados por quem observa e sem saber o que fazer com o filho que se joga no chão, bate os pés e chora como se tivesse sido machucado ou magoado seriamente.
Ele está, simplesmente, xingando e demonstrando sua raiva porque os pais “ousam” lhe negar a compra de um caríssimo brinquedo (que, por sinal, ele já tem em casa).
Os observadores dividem-se entre os que afirmam que seus filhos jamais fariam algo assim e os que acham que, se porventura isso viesse a acontecer, a cena acabaria rapidamente, com um par de palmadas. Com certeza, essas pessoas não tem filhos e nunca se defrontaramcom essa situação.
Outra parcela dos espectadores tomará o partido da coitadinha da criança; achará que não pode ser traumatizada. Pode se tratar de uma doce vovozinha ou de pais com enormes dificuldades de colocar limites ou provocar a necessária frustação aos filhos, já que o mundo não vai lhes fazer todas as vontades. Chamamos “compensadores” os pais que conseguem isso.
Essas cenas, as famosas birras, são provocadas pelo conflito criado entre o desejo e a intolerância á frustação de não ver satisfeito o desejo. Podem ser desencadeados também pelo fato de a criança não conseguir acabar com uma tarefa ou quando tem de cumprir com alguma norma familiar que atrapalha sua brincadeira. A criança tem um objetivo claro: obter a qualquer custo a satisfação do desejo.
PARECE CLARO QUE NÃO SE TRATA DE COMBATER A BIRRA COM GRITOS OU TAPAS POR SER ALGO “FEIO”. O QUE ESTÁ EM JOGO ÉE QUE O FILHO APRENDA COM A EXPERIÊNCIA QUUE A BIRRA NÃO É O MELHOR CAMINHO PARA CONSEGUIR O QUE QUER. ASSIM, O MELHOR “CASTIGO”, QUE POR SINAL SEMPRE É SIMBÓLICO E NÃO REAL, É QUE ELE SAIBA QUE SUA BIRRA ACABA, SEUS PAIS NUNCA PERDEM A CALMA E QUE A FRUSTAÇÃO (QUANDO PEDAGÓGICA) “NÃO MATA”.
O recado é: “Você está bravo, tem direito de demonstrar isso, porém, quando seus pais falam ‘não’ é ‘não’ até você ficar tranquilo”.
Outra inadequação é oferecer aquilo que foi negado para acabar com a chateação do filho birrento. Assim só se reforça o poder da birra.
O que podemos esperar da educação que dar aos nossos filhos? O que queremos lhes transmitir? Acho que concordamos que queremos, no mínimo, transmitir-lhes as condições básicas e suficientes de sua socialização.
Ás vezes, para não ser incomodados ou pela culpa por nossa ausência, introduzimos imprudentemente os princípios da Revolução Francesa na educação dos filhos: igualdade, liberdade e fraternidade.
A família tem de ter níveis saudáveis assimétricos, papéis bem definidos e normas a serem cumpridas. Se não se consegue entender e agir adequadamente, nos arriscamos a transformar um suposto escravo aborrecido em um tirano aborrecido.
Autor: Dr. Leonardo Posternak, pediatra presidente do IFA – Instituto da Família – instituição sem fins lucrativos, voltada para a formação de profissionais em saúde da família.